São as pessoas que inovam e não a tecnologia

25 Julho 2014

in Jornal de Leiria, 25 de julho de 2014

São as pessoas que inovam e não a tecnologia

 

A fotografia abaixo, tirada da janela de uma das empresas do grupo inCentea sobre a cidade de Leiria, leva-nos a pensar sobre a inovação como um todo. E o que vemos? Por vezes só nos focamos no imediato, no que salta à vista, o que é evidente, e não nos focamos no que nos fez chegar até ao que vemos, o resultado. Existem duas perspetivas importantes ocultas da visão: quem construiu e para quem foi construído tudo isto que vemos desta janela?

Exatamente o que pensei, as pessoas. Sem dúvida, o recurso mais importante para fazer a inovação acontecer. E por incrível que pareça, por vezes temos a tendência de esquecer. A visão que temos desta janela assume, quase como conclusão, sobre o que é a inovação, como ela acontece em conjunto, como a história ajuda a entender o futuro e como a partilha de conhecimento, de recursos e competências fazem acontecer a inovação. O sucesso desta conjugação de fatores faz as pessoas crescerem, e a economia avançar.

De uma janela do outro lado da cidade, um rei, de seu nome D. Dinis, olhou para além do que se via, conseguiu ver o que não está à vista do olhar comum, e trouxe, talvez, a maior inovação portuguesa de sempre. Uma inovação com impacto inigualável que, passados oito séculos, todos nós reconhecemos. E sim, vieram outros, outras pessoas que deram continuidade aos seus projetos iniciais. Poderemos encontrar desculpas que dão conforto ao medo de falhar ou de assumir que, afinal, todos falhamos, até D. Dinis falhou. Mas para conquistar o desejado sucesso na inovação, os recursos mais valiosos que precisamos de ter são as pessoas, que têm de pensar quando desejam inovar e quem vai receber ou consumir o valor dessa inovação, que serão outras e as mesmas pessoas.

A tecnologia? É o facilitador para nos ajudar a sermos melhores, mais rápidos e talvez mais eficazes. O convidado para partilhar a sua experiência não foi escolhido pelo cargo que hoje ocupa como gestor, mas pela sua visão, com base na experiência profissional, que certamente nos dará a convicção de que é possível e que somos todos capazes de colocar o tecido empresarial a criar excelentes inovações e trazer a Portugal uma visão futura e conjunta, parecida com aquela que D. Dinis viu daquela janela.

António Pires é atualmente director-geral da Autoeuropa. Licenciou-se em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico. Entrou nas Forças Armadas Portuguesas, primeiro no Exército, entre 1982 e 1985, como instrutor, e depois na Força Aérea, de onde saiu em 1992 com a patente de capitão, entrando na Autoeuropa nesse mesmo ano. O seu percurso na Volkswagen não parou; esteve em Pamplona, Espanha, daí seguiu o caminho pelas várias unidades do grupo Volkswagen no mundo, estando, antes de voltar à Autoeuropa, a gerir durante vários anos a unidade da Volkswagen em São José dos Pinhais, em Curitiba.

António Pires, diretor-geral da Autoeuropa

Inovação não é mais do que um meio para atingir um fim

Como vê a importância das pessoas no sucesso da inovação?

O processo de inovação tem sobretudo a ver com uma visão que a liderança estabelece para a sua organização. E considerando que a inovação é um processo exclusivo dos elementos humanos de uma organização, poderíamos então estabelecer aqui um silogismo entre recursos humanos, liderança e visão. Sendo a inovação um processo necessariamente criativo, para que esta exista terão de ser criadas as condições para que nasça e se desenvolva, o que terá muito a ver com irreverência, irrequietude e disrupção imprimidas pela liderança. Este processo não é compatível com uma organização na qual os seus colaboradores não se revejam e não partilhem os valores da liderança, ao não permitir a presença dos precursores emocionais do processo. Como tal, é crucial que as pessoas sejam envolvidas em todas as fases da construção de um modelo de gestão de processos de inovação. Inovação é algo que se abraça, não pode ser imposto ou decretado. A importância de inovar tem de ser clara para todos os níveis da organização e facilmente interpretada e vivida no quotidiano dos colaboradores.

Devemos liderar ou gerir a inovação e qual a importância do envolvimento da gestão de topo no processo?

Devemos liderar e gerir. A gestão de topo tem de dar o mote e ser o exemplo a seguir. Os colaboradores devem sentir o empenho da sua liderança na inovação para se inspirarem e adotarem esta prática no seu trabalho. Por outro lado, é necessário criar sistemas de gestão de ideias robustos e eficazes, que sejam capazes de agregar as ideias e projetos de inovação e garantir o seu rigoroso acompanhamento e avaliação até à implementação. De outra forma, as ideias perdem-se no seio das organizações e tornam-se processos adhoc. Na Volkswagen Autoeuropa criámos o GTI – Gestão Total de Ideias, um programa de recolha e seleção de ideias de melhoria contínua. Importa salientar que desde janeiro de 2013 até ao momento já foram concretizadas 287 ideias, que geraram poupanças no valor de 6.013.169 euros. Estamos agora a criar um sistema de gestão de inovação que integrará o sistema de melhoria contínua já existente, e que permitirá a participação de todos os colaboradores em projetos de inovação de maior complexidade.

Tendo em conta a sua experiência, fora e dentro de Portugal, o que considera que as empresas portuguesas deveriam fazer para atingir o sucesso na inovação?

A inovação não é mais do que um meio para atingir um fim. E esse fim é definido pela visão e estratégia subsequente. Aquilo que ainda se verifica hoje em dia é que, embora existam bons exemplos de estratégias bem definidas para algumas empresas, uma boa parte do universo empresarial em Portugal ainda vive em modo de sobrevivência, sem qualquer tipo de visão ou plano para o futuro. Isso será muito provavelmente a morte a prazo, anunciada para muitas dessas empresas. Como tal, há muito trabalho a fazer. Diria que a democratização da inovação nas empresas seria um primeiro passo de extrema importância. Isto significa abrir os processos de inovação a todos os níveis da organização e recolher as ideias geradas por esta abertura. Outro aspecto de grande relevância seria a implementação de um verdadeiro espírito de cooperação e colaboração sectorial, que envolva a partilha de conhecimento e de inovação entre empresas. Nos últimos anos tem sido evidente que os sectores empresariais cujas empresas uniram esforços no sentido de potenciar as mais-valias e minimizar as desvantagens competitivas têm sido capazes de se afirmar nos mercados internacionais. É, no entanto, importante distinguir processos de criatividade de processos de inovação. É nesta diferenciação que reside um dos fatores de sucesso, pois permite que as empresas se foquem em processos de inovação que permitam gerar riqueza tanto para a empresa como para o cliente.

 

Texto escrito por Paulo Martins, Director de Inovação