IV. Design Thinking

15 Janeiro 2015

in Jornal de Leiria, 15 janeiro de 2015

Nunca recusar o óbvio de alguns mas procurar os impossíveis de todos!

À medida que o tempo nos permite um envolvimento maior com estas dinâmicas (ou mindset, termo que dificilmente se traduz em português mas que revela mais que uma atitude, todo um paradigma novo de abordagem) permite-nos também uma maior facilidade na síntese com que entendemos terminar este caminho de quatro semanas a divulgar, num jeito muito introdutório o que é o Design Thinking.

Se nos exigíssemos uma síntese do conceito, poderíamos partilhar esta: uma abordagem mental prática para acelerar a inovação.

Ou seja, reconhecemos ter as pessoas predispostas, física e mentalmente, a concretizarem, no seu dia a dia profissional: processos, produtos, mercados, o que quer que seja. Sabemos que o Design Thinking promove a solução de problemas por meio de um olhar humano mas rompendo as barreiras da hierarquia e do pensamento exclusivamente cartesiano (alicerçado na lógica e na razão como a única coisa verdadeira da qual se deve partir para alcançar o conhecimento).

O Design Thinking oferece espaço para as ideias emergirem sem pré-julgamentos, fazendo-nos sair da nossa zona de conforto, e, a partir daí, enxergar futuros desejáveis, a experimentá-los, a concecioná-los e a confrontá-los com quem partilhamos o caminho.

Retomamos, em jeito de conclusão, a opinião de Luis Quental (PRIMAVERA BSS) quando afirma que  “o Design Thinking tem a inovação no seu ADN. É uma abordagem que naturalmente faz a inovação acontecer e hoje não existe nada mais certo no mundo da gestão que a mudança. O Design Thinking permite, ao mesmo tempo, pensar a mudança enquanto ela se realiza. Permite às empresas estar constantemente em evolução, dando a possibilidade de continuarem a operar enquanto repensam os seus serviços, produtos e processos. A grande particularidade do Design Thinking é que a inovação acontece ao mesmo tempo que está a ser pensada. Os designers operam com base num elevado sentido de observação da realidade e através de tentativa e erro, passando a conviver naturalmente com o erro como meio de aprendizagem. Quando essa forma de agir se transfere para os negócios, começamos a tentar fazer coisas novas e a reconhecer a falha muito cedo para aprender com os nossos próprios erros. O certo é que se avança muito mais depressa, utilizando apenas uma fração dos recursos que se utilizaria se tivéssemos dedicado meses a elaborar um relatório e uma especificação num projeto que só iria ver a luz do dia muito mais tarde para, muito provavelmente, falhar.”

Queremos que as nossas empresas percorram os caminhos da Inovação? Temos no Design Thinking uma verdadeira caixa de Pandora, mas das boas! Se precisarem da nossa ajuda, digam-nos qualquer coisa.

Abílio Lisboa

Ao estudar um assunto, ir às fontes deve ser uma exigência, quase moral. Terminamos esta semana com uma entrevista a Belmer Negrillo, de origem brasileira, Leader Designer na IDEO que, directamente de Silicon Valley, aceitou partilhar com a inCentea a sua visão.

1. Design Thinking, nova Atitude ou Tendência passageira nas organizações?

Com certeza não é uma tendência passageira. Design Thinking tem sido praticado em Silicon Valley há mais de 30 anos. Além disso, aqui é comum empresas requererem experiência na prática de Design Thinking para posições de design e inovação. O que está a mudar é que antes as empresas costumavam contratar consultorias de design quando precisavam olhar para o que faziam de modo diferente e inovar. Hoje, é cada vez mais comum estas mesmas empresas possuírem equipas internas com conhecimentos na prática de Design Thinking, tendo o design centrado no utilizador como uma prática comum.

Sei que Silicon Valley é um lugar específico, com uma cultura particular. Muitas vezes sinto-me como se vivesse numa bolha onde certas atitudes são tão comuns que parecem a norma. Sei que não é assim em outros lugares mas, mesmo assim, vejo que pelo menos o termo Design Thinking se tornou mainstream, deixando de ser restrito a profissões ou a áreas específicas. Além disso, aqui na IDEO vemos claramente que o mesmo processo que funciona para questões de design industrial funciona também para questões muito mais abstratas ou complexas, como educação e serviços públicos, expandindo a aplicabilidade do Design Thinking. Resultados nestas grandes questões ajudam a popularizar ainda mais essa atitude no processo de criação.

Por outro lado, frequentemente, confundimos afirmações que se tornaram senso comum, como “considerar o utilizador” ou fazer user testing com atitudes de prática destes princípios. Muitas destas noções já eram populares antes de se ter algo chamado Design Thinking, mas poucas empresas de facto incorporavam estas dinâmicas no dia a dia. Design Thinking ajudou a criar um processo criativo coerente, estruturado e repetível em torno de várias tendências soltas e não conectadas.

2. Implicações facilmente visíveis nas organizações que adotam dinâmicas de Design Thinking no seu dia a dia?

O processo de adoção do Design Thinking é em si processo de interpretação e reavaliação de atitudes internas. Isso por si só já é benéfico, promovendo mais consciência e intencionalidade no processo de decisão e de inovação. Quando implementado, geralmente é acompanhado por mudanças na cultura da empresa como mais colaboração e menos competição interna, por exemplo. Pessoas ficam menos apegadas a ideias específicas – já que estas são vistas como mutáveis e de autoria indefinida – e ficam mais propensas a ajudar a crescer as ideias dos outros.

Além disso, produtos que atendem às necessidades dos consumidores e que compreendem o contexto humano onde são utilizados geralmente vendem mais, repercutindo num aumento de faturação. 

3. O Design Thinking é uma ferramenta acessível para pequenas e médias empresas? Se sim, quais os primeiros passos a dar?

Sim, claro. Design Thinking é uma metodologia para a criatividade open source que, basicamente, propõe uma postura de empatia com o utilizador para inspiração e validação iterativa de ideias. A maior barreira para a adoção é cultural, é o valor dado à pesquisa e a testes intermediários como parte do processo. Complexidade ou custo não são grandes barreiras.

Um dos princípios do Design Thinking é “falhe rápido, falhe cedo”. Propõe que é melhor testar ideias com protótipos de baixo custo o quanto antes, de modo a aprender cedo se uma ideia tem ou não futuro e a evitar gastar muitos recursos e tempo num caminho sem saída. Pequenas e médias empresas estão naturalmente aptas a abraçar este princípio. Mas muitas vezes, limitações no orçamento levam empresários a questionar o quanto se dedica a analisar o que os utilizadores dizem ou como usam produtos ou serviços. Acham que é melhor utilizar todos os recursos existentes para desenvolver mais funcionalidades ou melhorar o acabamento. E, muitas vezes, isto é um erro. Funcionalidades que só agradam a um nicho muito específico (ou aos donos) ou o detalhe e refinamento de ideias que não agradam, acabam consumindo recursos essenciais que poderiam ter sido utilizados de modo mais efetivo se a opinião dos consumidores tivesse sido ouvida.

Começar por criar hábitos de conversar com os consumidores, tentar conhecê-los além da opinião direta referente aos produtos ou serviços. Tentar entender o contexto da vida das pessoas e como os produtos se alinham ou não com elas. Depois, não temer mostrar conceitos ainda não completos a clientes e a amigos. Ouvir como as pessoas completam as ideias é uma fonte de inspiração.

Artigo escrito por Abílio Lisboa, inCentea

(texto publicado na edição de 15 de janeiro de 2015, do Jornal de Leiria)