A inovação precisa da ajuda de um processo?

11 Setembro 2014

in Jornal de Leiria, 11 de setembro de 2014

A palavra processo deriva do latim de processus, que significa avanço, marcha, progressão. Alargamos o conceito para uma definição do processo empresarial, onde encontramos um conjunto de tarefas, ações que recebem inputs como informações, recursos, métodos, máquinas e, naturalmente, as pessoas: são elas que fazem os processos avançar, progredir. 

Quando falamos em processos da qualidade, assustamo-nos com a ideia, errada, de burocracia para cumprir. A própria inovação, também ela, é certificada, em muitos países e inclusive em Portugal, pela norma NP4457 Certificação em IDI (Investigação, Desenvolvimento e Inovação). Porque é que a inovação precisa da ajuda de um processo?

Inovar ao acaso não existe, implica envolver todos os colaboradores e parceiros externos, temas que já anteriormente aqui falámos. Precisamos de criar um fio condutor que siga o caminho definido pela estratégia organizacional, donde surge especificamente a estratégia de inovação. E, de uma forma simples, a totalidade da empresa deve conseguir responder…

O que queremos da inovação?

O que queremos permite-nos definir o que procuramos, que caminhos iremos percorrer, o que precisamos para o percurso e medir os resultados alcançados. Tudo isto se define em etapas, com algumas indicações ou regras. Pela experiência na inCentea, podemos partilhar que tem permitido focar a inovação, filtrar de uma forma mais simples as ideias chave, combinar ideias, gerir melhor os projetos e medir os objetivos estipulados. O processo vem disciplinar-nos na criação de âmbitos, na filtragem e na construção, mas nunca na criatividade. É importante separar as realidades. O processo não aparece com o objetivo de castrar a inovação, antes permite, depois de divergências na procura, a convergência para o melhor caminho possível.

Este processo divide-se em três grandes processos: gestão de ideias, gestão de interfaces e gestão de projetos. A nós tem-nos trazido uma experiência muito interessante, nomeadamente a aprendizagem na melhoria contínua, onde devido às constantes mudanças do mercado que conhecemos nos tem disciplinado na procura e assimilação de rápidas adaptações tendo em conta os contextos. Para este artigo convidámos Luís Menéres, da APCER, com uma larga experiência na certificação e auditorias de qualidade.

Luís Menéres, auditor da APCER para a certificação no domínio da qualidade e inovação

Requisitos para certificação da gestão da inovação serão mais exigentes no futuro

A inovação precisa da ajuda de um processo? Atua regularmente como auditor da APCER para a certificação de empresas nos domínios da Qualidade e da Inovação e como auditor do IPAC na acreditação de laboratórios de ensaio e de calibração. A sua atividade profissional principal centra-se na gestão de interferências eletromagnéticas em sistemas eletrónicos críticos (e.g. projetos de telecomunicações ou sinalização ferroviária em diversos países) e em sistemas de medição industriais. Pela sua experiência, que grandes vantagens esta norma traz às empresas?

Tenho tido o grato prazer de verificar em várias organizações que implementaram a NP4457 uma mudança notável na forma de abordar a inovação. Talvez por motivos culturais, no passado a inovação acontecia nas organizações de uma forma informal, pouco planeada, muitas vezes centrada em poucas pessoas, que atuavam em segredo e frequentemente de forma desalinhada com a estratégia estabelecida pela gestão de topo, nem sempre produzindo os resultados sonhados. A adoção da norma NP4457 obriga as organizações a determinar em que eixos pretendem inovar, a estabelecer canais formais de transferência de informação que potenciem esse percurso (e que induzem a criatividade interna), a captar as ideias daí geradas, a formalizar projetos daí resultantes, a rever periodicamente os resultados obtidos face às expectativas estabelecidas ao mais alto nível e a introduzir ajustes sempre que necessário. O modelo previsto na norma NP4457 impõe assim um forte alinhamento da estratégia da organização e das suas ambições com todas as atividades orientadas à inovação, disponibilizando mecanismos que facilitam a sua gestão e que melhoram a eficiência dos recursos empregues.

A certificação da inovação no futuro vai ser ainda mais exigente?

A versão atual da NP4457 é ainda a primeira versão desta norma. Considerando a experiência adquirida desde a sua edição no ano 2006, é hoje claro que alguns critérios da norma deverão ser melhorados, o que resultará inevitavelmente em requisitos mais exigentes. Presentemente a ISO está a avaliar a possibilidade de criar uma norma internacional para a Gestão da Inovação. Seguramente os requisitos para a certificação da gestão da inovação irão evoluir em breve para um modelo mais maduro, mais objetivo e necessariamente mais exigente.

Para quem ainda nem sequer tem inovação formalizada que conselho dá?

O primeiro passo consistirá em avaliar se realmente a organização em questão pretende ser inovadora, isto é, se pretende que os seus produtos ou serviços venham a possuir características diferenciadoras e inovadoras em relação aos demais produtos existentes no mercado. A inovação é certamente um fator importante para a sobrevivência das organizações face à concorrência e à globalização que se verifica em qualquer mercado, no entanto a experiência mostra-nos que nem todas as organizações têm um perfil efetivamente inovador, adotando muitas vezes abordagens ao mercado mais seguras, com menores riscos e sem qualquer inovação, não tendo pretensões de colocar no mercado produtos ou serviços que causem espanto nos seus mercados e recusando-se a investir realmente na inovação. Se o resultado da primeira reflexão apontar para uma organização com um perfil inovador, então a organização deverá refletir acerca dos produtos ou serviços que sonha disponibilizar no mercado, ou dos eixos em que pretende inovar, podendo de seguida adotar o modelo de gestão da inovação preconizado na norma NP4457, que certamente facilitará a gestão de todas as atividades e dos recursos indutores da inovação. Decidir pela certificação do sistema de gestão de inovação será a forma de comprometer todas as partes envolvidas com a completa implementação do modelo, credibilizando todo o processo e assegurando a definição de um prazo limite para a sua conclusão.

Texto escrito por Paulo Martins, Administrador inCentea