III. Design Thinking

08 Janeiro 2015

in Jornal de Leiria, 8 janeiro de 2015

Porque o humano em nós sempre se reinventa, de preferência connosco!

Em cada dia que passa a provocação, (ou se quisermos exigência) interna e externa de conquistar melhores resultados, é cada vez maior. O receio de não conseguir atingir as respetivas metas ou determinados resultados faz com que, além do stress associado, em vez de arriscar, continuemos a percorrer os caminhos mais seguros e conhecidos (os de sempre) fazendo com que a procura da criatividade e da implementação duma cultura inovadora e transformadora se vá adiando até ao dia, ano, ou época mais oportunos…

Com os dois artigos anteriores tentamos mostrar que o Design Thinking tem vindo a propor um caminho diferente, uma abordagem que promete inovação, implementada como cultura e a dar frutos visíveis e mensuráveis.

A razão, ou se quisermos o segredo que nunca é demais sublinhar, é porque se foca, efetivamente, no ser humano (em ambiente empresarial, por muito que maquilhemos a questão, o focus continua “preso” à relação ou à ação a desenvolver: cursos de vendas (para vender ao cliente), gestão de conflitos (para gerir discórdias comercias), curso de cobranças (para conseguir ir buscar a tempo e horas, e a desoras, os respetivos pagamentos)… e assim sucessivamente.

É como se houvesse um redescobrir de filosofias anteriores que podemos sintetizar numa frase de Terêncio “Homo sum, humani nihil a me alienum puto” que numa tradução simples nos diz: "Sou um homem, nada que é humano me é estranho." 

E a provocação é mesmo esta, numa época em que todos sabemos cada vez mais acerca de nada ou quase nada acerca de tudo, conseguir perceber o intrínseco da humanidade presente nas relações, instituições e organizações que habitamos e fazemos acontecer em cada dia que passa. 

Urge fazer da multidisciplinaridade científica (colaboradores com formações académicas e percursos de vida tão díspares), da colaboração pessoal (presencial e, hoje, tantas vezes à distância) e da capacidade de materializar pensamentos e processos em realidades que conduzem a soluções inovadoras para os negócios das organizações. No fundo, conduzem a organizações novas, porque adaptadas às exigências de qualquer tempo e espaço.

Voltamos ao ponto central que envolve as pessoas nas organizações: urge identificar problemas e gerar soluções. As pessoas, predispostas a este tipo de raciocínio e atitude, no meio empresarial, tentam questionar-se através da efetiva compreensão dos fenómenos que as envolvem e dos processos estipulados nas organizações. 

Há que haver uma constante recolha de informação do universo dos problemas, a enriquecer o entendimento da realidade e a permitir diferentes abordagens e perspetivas de análise. Recordamos que as soluções não nascem só para responder aos problemas, terão sempre de se encaixar nestes e completá-los, trazendo novos problemas e novas soluções que permitem um problema maior mas uma solução, por sua vez também, ainda maior.

A nossa procura não se pode ficar ou parar nos resultados. Queremos a superação que contribui para que qualquer organização seja capaz de se prolongar na história, porque soube estar à altura das eventualidade que as pessoas do dia a dia necessitaram, exigiram e, contribuindo com o seu empenho e disponibilidade, conquistaram com respostas adequadas ao seu devir histórico.
 

Esta semana terminamos com a partilha de um especialista nacional, Luis Quental, UX Head Manager na PRIMAVERA BSS, parceira da inCentea na oferta de software de gestão ao mercado nacional e internacional.

1.  O Design Thinking é uma ferramenta acessível para pequenas e médias empresas? Se sim, que caminho deverão começar a trilhar?

O Design Thinking, não pode ser considerado uma ferramenta, é antes uma filosofia de gestão inspirada na natural forma como os designers abordam e resolvem problemas e é no âmbito dessa abordagem que, por sua vez, se adota uma série de ferramentas metodológicas. Estas ferramentas, não constituindo um conjunto fechado, partilham alguns princípios orientadores em torno dos quais são constantemente reinventadas e adaptadas conforme o contexto e as situações.

Posto isto, podemos dizer que o Design Thinking pode ser generalizado a qualquer empresa independentemente do seu tamanho ou do seu ramo de atividade, tal como outras filosofias de gestão que anteriormente estiveram em voga; umas mais baseadas em métodos quantitativos, outras na motivação das pessoas e na criação de culturas organizacionais robustas, outras ainda na análise e cativação de mercados. O Design Thinking não vem substituir nenhuma destas anteriores filosofias, vem sim complementá-las e trazer muito mais capacidade de adaptação aos negócios.

Quanto ao caminho que as empresas devem começar a trilhar para aproveitar as vantagens do Design Thinking, ele faz-se certamente através da inclusão de pessoas que possam facilitar e liderar essa caminhada. Quero com isto dizer que o emprego de designers que sirvam como facilitadores e integradores de visões estratégicas em equipas verdadeiramente pluridisciplinares, é um importante fator de sucesso das iniciativas ligadas ao Design Thinking. Mas este envolvimento de designers não pode ser realizado de ânimo leve e dando-lhes apenas um papel superficial ou acessório. Ao contrário de dar ao designer um papel de mero ilustrador das ideias dos outros, o designer deve ter um papel estratégico e ser um verdadeiro parceiro das lideranças para ajudar a entender e resolver os problemas. Já Leonardo Da Vinci dizia “Il disegno è una cosa mentale”, como tal, nunca se devem separar as mãos de um designer do seu cérebro, é pelo conjunto que eles têm valor.

Outras iniciativas passam pela reformulação dos modos e espaços de trabalho. Trabalhar em grupo e partilhando coisas tangíveis (protótipos, ilustrações, post-it na parede, etc.) é muito importante para atenuar as barreiras de vocabulário que naturalmente existem entre os diferentes especialistas. Colocar as equipas em espaços sem mesas individuais e com muitas paredes onde se possam desenhar e afixar ideias, fomenta a partilha e aumenta de forma exponencial a produtividade e a criatividade coletiva. Os espaços de trabalho em equipa devem contrariar comportamentos de isolamento ou mesmo de reunião onde todos estão sentados atrás dos seus computadores.

Mas mais do que tudo, para começar a trilhar este caminho, é necessário levantar das cadeiras, deixar as secretárias e sair das salas de reunião; ir para a rua, conhecer de em primeira mão e de forma sistemática os nossos clientes, os nossos parceiros, entender os seus problemas ao ponto de eles se tornarem os “nossos” problemas. Isso dá-nos uma consciência mais profunda do significado que o nosso negócio pode ter na vida dos que estão lá fora e como o podemos 

 

2.    O que faz um especialista em Design Thinking numa empresa como a Primavera?

A Primavera BSS oferece experiências de gestão às pessoas que fazem funcionar as empresas. Durante muito tempo as empresas trabalharam (e ainda muitas por aí definham) segundo um paradigma industrial e burocrático em que existia um processo linear relativamente estável no qual cada pessoa ocupava o seu lugar na “linha de montagem”. Nesse paradigma, cada um realizava tarefas limitadas e específicas onde muito pouco era deixado ao acaso ou à criatividade e onde o output era sempre o mesmo ou com pequenas variações. Os colaboradores eram pessoas pouco instruídas e com horizontes muito limitados para os nossos padrões atuais.

Hoje nós sabemos que, com a economia do conhecimento e com o nosso tecido empresarial quase completamente dedicado aos serviços, onde o contexto é muito diverso e onde a mudança acontece de forma muito acelerada e drástica, o paradigma do processo linear já não consegue responder. Hoje cada colaborador tem de ter autonomia e conhecimento para tomar decisões no dia a dia. É pela capacidade de tomar a melhor decisão informada por todo e qualquer colaborador que os negócios conseguem fazer a diferença num mercado cada vez mais evoluído e exigente. Por outro lado, esta autonomia traz consigo a oportunidade de oferecer a estes colaboradores um grande espaço para exercitarem de forma mais plena todas as suas capacidades e para evoluírem dentro dos seus locais de trabalho. 

Porque o software de gestão já não necessita (nem pode) seguir um processo burocrático rígido e porque, em vez disso, precisa de produzir experiências com significado para as pessoas; nós queremos suportar essas pessoas no seu dia a dia. Queremos fazer com que elas prestem um melhor serviço, ajudá-las a aplicar todas as suas capacidades e motivá-las a crescerem e a aprenderem constantemente. Principalmente, queremos fazer com que a vida dos colaboradores de cada uma das empresas nossas clientes seja a mais gratificante e transformadora possível. 

O centro da atenção está agora nas pessoas e não nos processos; infelizmente muitas empresas ainda não entenderam isto em profundidade. É exatamente por isso que faz sentido haver na Primavera BSS um especialista em Design Thinking ligado ao design e à User Experience (UX) do software; porque o Design Thinking coloca o seu foco nas pessoas.

Texto escrito por Abílio Lisboa, inCentea.

(texto publicado na edição de 8 de janeiro de 2015, do Jornal de Leiria)