Cultura de Inovação?... O que é isso?

26 Junho 2014

in Jornal de Leiria, 26 de junho de 2014

A vontade de assumir o desafio para atingir a meta tem de ser incansável 

Quando olhamos pela janela, imaginamos o amanhã através da criação de uma visão, pensamos um pouco e assumimos a nossa missão, traçamos rotas que são medidas por etapas e temos o caminho definido. Quando o fazemos sozinhos, por um lado é fácil, mais rápido, mas muitas vezes pobre pela dimensão. É uma visão única que nem sempre nos permite julgar-nos a nós mesmos e quando a fraqueza aparece, caímos.

Quando o caminho é traçado por um conjunto pessoas, é mais difícil de chegar sintonizado ao caminho definido, mas é sem dúvida mais rico, mais forte e mais capaz. A liderança assume assim um papel ainda mais relevante, com a responsabilidade da orientação sintonizada, sempre “focados na seta”, no caminho definido pelo conjunto.

O que tem isto a ver com cultura e com a inovação? Tudo…

As organizações vivem ao longo do tempo, se forem capazes de assumir que são organismos vivos, com um caminho traçado capaz de se adaptar às mudanças, irão superar desafios por vezes intitulados de impossíveis de ultrapassar. Os organismos vivos precisam de se alimentar, neste caso com dinâmicas, com visões partilhadas e diferentes, com sinergias, com novas descobertas e com muito trabalho.

O que nos falta para aumentar esta esperança de vida das empresas portuguesas?

Cada pessoa é uma pessoa, cada organização é uma organização. Não nos podemos esquecer disso. A recente experiência de visita ao Silicon Valley relembrou-me o que nos falta para nos reinventarmos com sucesso constantemente. As habituais desculpas, que todos conhecemos para nos acomodarmos ao futuro não saudável, já não são aceitáveis e as respostas são evidentes… O caminho tem que estar bem traçado e a vontade de assumir o desafio para atingir a meta tem de ser incansável. O caminho é feito em conjunto e partilhado com outros, com humildade e abertura para aceitar opiniões diferentes, caminhos diferentes. Convido os mais céticos a conhecer a Square e o Diogo Mónica como um claro exemplo de que é possível Fazer Acontecer, mas nunca sozinhos. A ideia para ter o sucesso desejado tem de agregar competências, visões diferentes no mesmo sentido.

A Square foi fundada em 2009 por um dos fundadores do Twitter, Jack Dorsey, com o objetivo de criar uma solução de pagamento por cartão em sistemas IOS e Android.

Diogo Mónica, português, hoje conhecido em Portugal como o “Mini Bill Gates”, é um ex-aluno do Instituto Superior Técnico que preferiu apostar em trabalhar numa start-up em que acreditava a trabalhar nos gigantes Google ou Facebook. E acertou em cheio! A Square é hoje um negócio avaliado em mais de 5 mil milhões de euros e já conta com mais de 800 colaboradores…

Diogo Mónica, responsável pelo sistema de segurança informática da Square, entrevistado por Paulo Martins

A inovação nasce da capacidade de comunicação entre pessoas inteligentes e com diversidade cultural

Diogo, o que te inspirou para aceitar o desafio da Square em detrimento de uma empresa como o Facebook?

Antes de enviar a candidatura para a Square, estava no processo de entrevistas tanto para o Facebook como para a Google. Acho que o acabou por acontecer foi aperceber-me que o meu impacto iria ser muito limitado em ambas as empresas, principalmente devido à sua grande dimensão. Esse foi o principal motivo que me fez procurar algo mais pequeno. 

Ouvi falar na Square pela primeira vez na TechCrunch. Pareceu-me a oportunidade perfeita: tinha acabado de receber o primeiro “round” de financiamento, tinha sido fundada pelo Jack Dorsey, tinha um produto que me conquistou desde logo e, finalmente, só havia uma pessoa a trabalhar na equipa de segurança na altura, portanto sabia que tinha potencial para ter um impacto enorme na direção da empresa.

Como é que a Square encara a cultura de inovação e encontra a sua constante inspiração?

Acho que uma das características fundamentais para uma empresa conseguir cultivar uma cultura de inovação é ter uma cultura de comunicação. A Square promove a comunicação de imensas formas, desde o escritório “open-space” com espaços focados em promover o contacto entre colaboradores (uma coffeeshop completa), a uma transparência quase total em tudo o que se está a passar na empresa (por exemplo, são enviadas notas de todas as reuniões que acontecem para uma lista de email visível a todos os colaboradores). Eu acredito que a inovação nasce principalmente desta capacidade de comunicação entre pessoas inteligentes e com diversidade cultural.

Achas que é possível criar uma cultura de inovação em Portugal como a que vives aí?

Sim, acho que é possível. Alguns dos requisitos fundamentais para inovação, na minha opinião, são: capacidade, diversidade e comunicação. Penso que em Portugal claramente temos a capacidade: há engenheiros, designers e pessoas da área de negócio absolutamente brilhantes a saírem do nosso país. Em termos de diversidade, acho que essa é a grande vantagem do Silicon Valley, o ter atraído tantas pessoas com backgrounds e experiências diferentes num só sítio, é algo que nós não temos atualmente, mas que podemos cultivar. Finalmente temos o problema da comunicação/partilha, em que acho que simplesmente temos uma desvantagem cultural, mas que podemos resolver com iniciativas que promovam a colaboração entre entrepreneurs, a indústria e as universidades.

Que desafio gostavas de lançar às empresas portuguesas?

Deixo-vos com um desafio simples: venham a São Francisco ver como isto funciona. Em geral há uns quantos erros típicos que as pequenas empresas estrangeiras fazem, e que uma visita “a este lado” corrigiria muito rapidamente. Entre elas:

  • Quando estão a desenvolver uma nova ideia/produto comecem sempre por olhar para o mercado estrangeiro.
  • Uma boa equipa é muito mais importante do que uma boa ideia.
  • Depois do plano elaborado, cortem 50% das features (características) e lancem a ideia para o mercado em metade do tempo inicialmente previsto.
  • As Ideias não devem ser segredos guardados as sete chaves. Ninguém vos vai roubar a ideia, mas o feedback que vos dão dar pode permitir-vos poupar meses de trabalho inútil.
  • Uma boa equipa, com uma boa demo, consegue financiamento deste lado. A desculpa do “não há financiamento em Portugal” já não funciona.

 

Texto escrito por Paulo Martins, Administrador inCentea