Criatividade é inovação?

17 Julho 2014

in Jornal de Leiria, 17 de julho 2014

Quebrar o mito que só algumas pessoas são criativas é essencial

Criatividade é inovação?

Todos nós nos lembramos desta expressão de Thomas Edison: “Talento é 1% inspiração e 99% transpiração”… É assim que eu gosto de definir o que é criatividade ou ideia inicial e o processo de inovação, que no final Thomas Edison chama de talento, e eu chamarei de inovação ou sinónimo de geração de valor.

Apesar da diferença percentual, ambas são igualmente importantes, sendo a inspiração por vezes mais fácil de atingir, o momento de inspiração num determinado contexto ou por várias razões é propício acontecer. A segunda parte vai exigir sempre muito trabalho, é por isso que muitas vezes se ouve dizer “… eu já tive essa ideia e, olha, agora ela anda aí com muito sucesso…”. É verdade que tivemos a tal ideia, mas por mil e uma razões não a pusemos em ação, mas alguém colocou e gerou a inovação. Vamos por partes, começando pela criatividade.

A criatividade é o momento de inspiração que deverá ter um contexto, um desejo, um objetivo, mas não é mais do que isso. Deve ser livre de surgir sem limite, e num ambiente onde todas as ideias são válidas.

Quebrar o mito que só algumas pessoas são criativas é essencial. No entanto, sabemos que pelas experiências, contextos sociais e culturais das nossas vidas, vamos criando processos automatizados nas nossas mentes que acabam por muitas vezes por limitar as desejadas ideias out of box. Por alguma razão, as crianças são consideradas mais criativas, porque esses processos automatizados estão pouco enraizados ou ainda não existem. Hoje contamos com o auxílio de muitas ferramentas e metodologias que nos ajudam a get out of box. Entre elas, a mais popular é o brainstorming, mas existem outras que vivamente aconselho a experimentarem como: mindmap, randomword, scamper. Além destas agora referidas existem metodologias que vão ainda mais longe, contextualizando melhor o propósito da ideia, até a uma fase onde a ideia é testada em formato de protótipo, ou mesmo já entrando na parte da inovação, destaco o design thinking ou o pretotyping, por exemplo. Ou ainda metodologias de trabalho já mais abrangentes como a metodologia Kaizen ou 6 Sigma.

Nenhuma substitui nenhuma, mas as combinações das várias ferramentas, adaptadas a cada realidade, devem ser tidas em conta. A segunda parte é falarmos dos 99%, o caminho mais longo que iremos abordando ao longo destes artigos. Mas é esta porção que faz transformar a nossa criatividade em valor e chegar à desejada inovação. É um processo que começa pela tomada de decisão, a escolha única de um filtro de muitas ideias válidas, parecidas e por vezes tão válidas quanto a escolhida. Torna-se importante que as ideias não selecionadas fiquem registadas em histórico, para no futuro poderem vir a ser incorporadas em mudanças de contexto e ser assim chamadas a criar novos caminhos.

Usando um exemplo empresarial de como poder ser estimulada a criatividade e a inovação, convidámos Carlos Pires, Head of Innovation do Grupo Salvador Caetano, a responder a algumas questões. O Grupo Salvador Caetano nasceu em 1946 é hoje um grupo presente em mais de dez países… com cerca de 6 000 colaboradores.

Carlos Pires, Head of Innovation do Grupo Salvador Caetano

“A criatividade nem sempre é sinónimo de inovação”

Como estimulam a criatividade no Grupo Salvador Caetano?

O Grupo Salvador Caetano tem várias áreas de negócio com realidades e estádios de desenvolvimento diferentes: temos a indústria, o retalho automóvel, os serviços e as energias renováveis. Na indústria temos a fábrica de montagem Toyota, a fábrica de autocarros em Portugal e na China, e a nova unidade de componentes aeronáuticos. Por isso, não devemos utilizar as mesmas receitas para todos.

Temos que ser rígidos nos princípios e flexíveis na execução. Em todo o caso, por razões históricas, podemos dizer que temos uma grande influência da cultura Toyota, assente nos princípios Kaizen. A inovação e a melhoria contínua são duas faces da mesma moeda. Por isso, apostamos em disseminar as práticas do Kaizen Diário, através de projetos-pilotos nas várias áreas de negócio, começando por organizar e envolver as equipas naturais, melhorando a comunicação e a motivação, definindo indicadores diários que façam sentido à área operacional, medindo e melhorando continuamente. As grandes virtudes do Kaizen passam por criar hábitos diários nas equipas, que se tornam permanentes, gerando eficiência e criando uma cultura de mudança de baixo para cima. Nada surge de geração espontânea, é preciso começar, ter paciência e estar preparado para trabalho árduo e ainda assim poder falhar, e tentar de novo. A criatividade nem sempre é sinónimo de inovação. Ela tem que gerar valor para o cliente e estar alinhada com os objetivos e estratégia da empresa.

Como geram as ideias e conseguem transformá-las em inovação?

Hoje temos três canais para acolher sugestões dos colaboradores: uma caixa de correio (fabricadeideias@) gerida diretamente pela Gestão de Inovação; fóruns temáticos lançados periodicamente na intranet do grupo; e mais importante, as propostas Kaizen lançadas pelas equipas e geridas pelos líderes das equipas Kaizen e núcleos de inovação, com coordenação da Gestão da Inovação. Temos também um blog interno chamado “Fábrica de Ideias”, de acesso transversal, onde se publicam e partilham projetos e iniciativas realizadas de Inovação e Melhoria Contínua do Grupo. A Inovação Disruptiva acontece muito raramente (menos de 5%), por isso a Inovação Incremental é a que cria mais valor para as empresas. O Kaizen Diário é uma ferramenta poderosa para fazer melhorias incrementais. É sempre preferível fazer já uma pequena melhoria do que pensar em fazer uma grande melhoria amanhã. O segredo é meter as mãos na massa, fazer mais e discutir menos. Colocar as equipas a trabalhar e pensar deste modo já é inovação organizacional.

Que desafio lanças às empresas que ainda não apostaram nestas condições para fazer acontecer a inovação?

Não se inova por decreto, nem podemos impor a inovação nas empresas. Mas podemos criar mecanismos de partilha que possam “contaminar” os outros pelo exemplo. Por isso, criámos um Comité de Inovação onde periodicamente (3 em 3 meses), todos os responsáveis das áreas de negócio se sentam à mesma mesa para partilharem experiências e iniciativas de outras áreas de negócio, bem como seguem alguns indicadores relacionados com a Gestão de Inovação no Grupo. Depois, desafiámos os responsáveis de negócio a criarem o seu núcleo de inovação (tipicamente, 3 a 5 pessoas), para acomodarem algumas funções ligadas à gestão de inovação e melhoria contínua. Por fim, criámos equipas para implementar projetos-piloto de Kaizen Diário nas várias áreas de negócio. Agora já estamos num estágio de alargamento da fase piloto. Pelo que estamos a estruturar e sistematizar a formação de líderes, a formação das equipas naturais, o coaching, a auditoria e o nivelamento (partilha de boas práticas). O Kaizen é essencialmente método e disciplina, porque o difícil é manter. A excelência é uma longa e difícil caminhada, para a qual teremos que estar mentalmente preparados para avançar e evoluir por passos, degrau a degrau. Não há outra saída para a inovação a não ser trabalho árduo, disciplina e foco na criação de valor para os clientes.

 

Texto escrito por Paulo Martins, Diretor de Inovação