Avaliar a inovação

23 Outubro 2014

in Jornal de Leiria, 23 de outubro de 2014

Avaliar a inovação

Para muitos é impossível medir a avaliação da inovação, a não ser pelos resultados financeiros. Há, também, quem defenda que a avaliação mata a inovação, porque se foca nos resultados imediatos e não nos de longo prazo. No meu entender, tudo tem um pouco de verdade e de mito ao mesmo tempo.

É convicção que sem uma boa avaliação não sabemos em que ponto estamos do nosso caminho e não conseguiremos tomar as medidas necessárias para dar continuidade conforme os objetivos inicialmente definidos.

Ao longo destes artigos fizemos uma caminhada pela nossa visão da inovação e, ao chegar aqui, queremos sublinhar que na avaliação dos resultados de inovação estes só podem ser positivos se fizermos a caminhada integral entre a visão, a estratégia com o foco nas pessoas que montam processos e que assumem conscientemente que só a partilhar e a trabalhar em conjunto chegam lá, definindo objetivos concretos e indicadores para avaliar a caminhada feita. E, no fim, poderão chegar à clara conclusão que geraram valor diferenciador, ou não.

Em breve esperamos partilhar algumas novidades da inCentea Inovação. Este caminho está-vos aberto, podendo solicitar-nos o aprofundamento do que aqui partilhámos. Partilho o meu contacto na convicção de que só estando disponível poderei trilhar os caminhos inovadores que ainda desconheço: paulo.martins@incentea.pt.

E a concluir faz sentido falar dos resultados de Portugal em termos de inovação. Temos bons exemplos made in Portugal mas temos também uma boa margem de melhoria. A COTEC tem feito um grande esforço nesse sentido, em todas as vertentes, sobretudo na promoção de sinergias entre as empresas, sejam elas grandes ou PME. Para nós, inCentea, tem sido uma cooperação que não para de nos surpreender.

Isabel Caetano é atualmente diretora de projetos da COTEC e partilha connosco, conhecendo a realidade portuguesa como poucos, o que neste processo convém ter constantemente presente para continuar um caminho que se quer diferente porque diferenciador.

Paulo Martins, Diretor de Inovação

 

Inovação e criação de valor

A inovação assume pleno significado quando se reflete em resultados que permitem a criação de valor. Os seus efeitos abrangem inúmeras manifestações que vão desde as repercussões sociais até ao seu papel na competitividade das empresas. Portugal apresenta um perfil de inovação considerado "moderado" e caracterizado sobretudo pela sua fraca capacidade de gerar impactos económicos. Num total de 52 países analisados no Barómetro de Inovação, Portugal ocupa o 29º lugar, abaixo da média global, da média da UE 27 e da média da OCDE.

O que dizem os Indicadores do Barómetro de Inovação?

Analisando quatro principais dimensões - Condições, Recursos, Processos e Resultados - o Barómetro de Inovação permite observar que Portugal assume um perfil de país "cigarra", isto é um país que não consegue aproveitar as condições favoráveis desenvolvidas nas últimas décadas e concretizá-las em resultados com impacto económico e social. A trajetória corresponde a um perfil pouco eficiente e com falta de uma abordagem focada nos resultados (no "delivery").

A esse perfil corresponde também, em termos empresariais, uma enorme dificuldade em avaliar e medir os resultados de inovação. A par da ausência de uma estratégia de inovação clara, as empresas têm feito poucos progressos na aplicação de processos sistemáticos de gestão de inovação capazes de sustentar a sua dinâmica, as suas interações no ecossistema de inovação ou a continuidade, numa lógica de portfolio, da sua atividade de I&D e de inovação. Assim, não é de estranhar que o impacto dessa atividade seja apenas parcialmente conhecido porque pouco avaliado e medido quer nos seus efeitos tangíveis quer nos seus efeitos mais intangíveis. A aplicação, por exemplo, de uma "métrica" tão simples como a "evolução do peso de novos produtos e serviços no volume de negócios", que corresponde a uma das questões do sistema de innovation scoring, poderia contribuir para que, anualmente, se conseguisse avaliar a capacidade empresarial de renovação da sua gama de produtos.

Existem porém inúmeros "casos" de maior projeção nacional e internacional, com brilhantes exemplos de inovações não só de produto (bens e serviços) como de marketing, entre outros tipos de inovação. Mais existirão e outros encontram-se em gestação. Dessa atividade, conseguimos extrair outras aprendizagens. Fica uma delas: a de que avaliar contribui decisivamente para a formulação de medidas e ações baseadas na "evidência", apoiando, por isso, a tomada de decisão fundamentada.

Mais e Menos da Inovação em Portugal

Portugal apresenta uma situação relativamente favorável em indicadores referentes à envolvente institucional em geral, ainda que com algumas exceções, como por exemplo a sua posição em termos de eficiência judicial, e às infraestruturas. Também no pilar de Financiamento, em especial com a contribuição do capital  de risco, verifica-se uma ligeira melhoria, tal como no pilar de Networking e Empreendedorismo.

Porque nos foca a atenção na ação, importa destacar os pilares, entre os 10 analisados, em que Portugal ocupa uma posição mais desfavorável:

Capital Humano – Verificou-se um ligeiro agravamento neste pilar, em parte justificada pela descida nos indicadores "Doutorados em Ciências e Engenharia e Ciências Sociais e Humanas entre os 25 e os 34 anos", inscrição no ensino superior e despesa global em Educação (em % do PIB).

Aplicação de Conhecimento – Neste pilar, Portugal manifesta uma posição frágil em diversos indicadores referentes à propriedade intelectual e no indicador "Taxa de crescimento da produtividade da força laboral".

Impactos Económicos – Sendo um dos dois tipos de resultados avaliados, os impactos económicos das atividades inovadoras, decorrentes das exportações de alta tecnologia e de sectores de conhecimento intensivo e do emprego em sectores de média e alta tecnologia, revelam a maior fragilidade do país.

Que desafios?

A criação de valor a partir da inovação justifica a adoção de uma abordagem holística que encerra em si mesma um conjunto de desafios que muitos de nós já identificámos. Desde logo, a necessidade de uma governança integrada, participada e regulada. Um sistema de inovação não existe só porque queremos atribuir-lhe vida. Exige coordenação e mobilização dos atores em torno de uma agenda estratégica focada em resultados a atingir.

Por outro lado, e partir da base de conhecimento disponível e de plataformas colaborativas, como os polos de competitividade ou as instituições de interface com as universidades, os processos de apoio ao desenvolvimento da inovação parecem indispensáveis para sustentar as dinâmicas e gerar novos projetos e actividades de I&D e de inovação. O impacto dessas atividades resultará em novos produtos (bens e serviços), em novas atividades de marketing e em organizações mais eficientes e mais competitivas, decorrentes de mais inovações de natureza incremental ou associadas a inovações de processo e de tipo organizacional.

O facto, incontestado, de que a estrutura produtiva afeta o desempenho dos países em termos de inovação, pela maior ou menor especialização em sectores de baixo valor acrescentado, explica certamente parte do problema, mas os exemplos cada vez mais presentes na nossa economia acalentam a esperança de que possam ser replicados, de modo acelerado.

Consulte estes e outros dados no Barómetro da Inovação em www.barometro.cotecportugal.pt

Isabel Caetano, Diretora de Projetos da COTEC